Na despersonalização e desrealização

Talvez todos nós ao longo da vida experimentámos momentos em que nos sentimos a “viajar”, “distantes de nós próprios”, “como se tivéssemos num sonho acordados”, “ficar a olhar para o espaço e não ter a noção do tempo passar”, ou “sentirmo-nos estranhos no nosso corpo”, etc. A esse tipo de processo chamamos de Dissociação. A dissociação é um processo que pode ocorrer em pessoas sem qualquer perturbação psicológica ou psiquiátrica. A despersonalização e a desrealização são formas de dissociar e que envolvem uma mudança na experiência ou percepção de si próprio e do que o rodeia. Este tipo de sensações só se torna num distúrbio (patológico) quando acarreta um marcado sofrimento psíquico e o torna disfuncional ao nível social, laboral, e emocional.

A despersonalização e desrealização estão, na maioria das vezes, associados a episódios de ansiedade, depressão, e pânico. Muitas vezes as pessoas dissociam primeiro e depois experienciam um ataque de pânico devido ao processo ser demasiado assustador. Isto porque num episódio de despersonalização o que é familiar é sentido como novo, irreal, estranho ao próprio eu.

Os sintomas passam por:
  • Sentimento de estar desligado do próprio corpo, como se o tivesse observar de fora;

  • Sentir que o ambiente à sua volta é irreal (sensação de viver num sonho);

  • As coisas parecem irreais e/ou desfocadas, estranhas;

  • Fotossensibilidade;

  • Os outros e o mundo podem parecer “estranhos”;

  • Ter pensamentos estranhos e achar que está a enlouquecer ou que vai perder o controlo.

Como referido a despersonalização / desrealização é um dos processos que pode ocorrer num episódio de pânico, causando um elevado sofrimento para quem o vive.

Normalmente este tipo de “sensações” passa quando o nível de ansiedade baixa. Este transtorno pode durar momentos, dias e até semanas, uma vez que pode andar com níveis de ansiedade bastante altos sem se aperceber disso, assim como pode ocorrer em episódios depressivos. O que sucede é que fica com medo de voltar a sentir um episódio de pânico e de sentir este tipo de sensação e vive excessivamente preocupado, com medos, receios e numa constante vigília sobre aquilo que pensa, sente, faz. Parece existir uma híper- consciencialização de tudo ao seu redor e do seu próprio corpo. Está demasiado centrado em si. À mínima sensação estranha, como por exemplo uma simples sensação de tontura, o alarme interno dispara, desencadeando um ciclo vicioso em que se torna difícil sair.

Quando a mente fica muito carregada e cansada devido a momentos prolongados de stress ou ansiedade, ela procura defender-se. Isto é, quando estamos cansados psicologicamente e emocionalmente a nossa psique arranja forma de se defender e estas sensações descritas em cima são fruto disso. Trata-se de um mecanismo de defesa, muitas vezes desencadeado pela vivência de uma situação traumática; isto é, uma forma de protecção de toda a ansiedade e conflitos que pairam no inconsciente. Temos que ver a despersonalização como um sinal de que algo não está bem interiormente, e não ficar centrado no sintoma, pois deste modo, ele agravará ainda mais.

Caso os sintomas persistam procurar ajuda profissional é a melhor forma de compreender as suas causas e, assim, melhorar.

Ansiedade infantil

Todo o desenvolvimento humano e infantil acarreta um certo grau de ansiedade. Todos nós, em adultos, e em crianças, sentimos, em determinados momentos, ansiedade. A ansiedade é uma emoção como todas as outras e normal! Ela existe e não significa que a criança esteja doente ou sofra de qualquer tipo de patologia. Os medos e os anseios infantis, como o medo do escuro, o medo dos animais, o medo do “papão” são inerentes ao desenvolvimento infantil, organizando-o. É importante que os pais e/ou cuidadores respeitem este processo de crescimento, sendo bastante prejudicial comentários depreciativos e redutivos, como por exemplo: “não sejas maricas, os cães não fazem mal nenhum”; “és maluca, não existe nenhum papão”; “não tenhas medo do escuro, tens que ser um homem”. Este tipo de interpretação afecta o desenvolvimento emocional e psíquico da criança, bem como a sua auto-estima. Os medos e as ansiedades infantis, quando normais e adaptativos, irão passar com o tempo e irão transformar-se numa maior resiliência e maior capacidade de tolerância à frustração.

Então, quando nos devemos preocupar?

Quando a ansiedade é demasiado intensa e perturba o desenvolvimento social, emocional e relacional da criança. Isto é, quando a mesma deixa de estar funcional na sua vida e rotina diária, apresentando um sofrimento, por vezes, mascarado.

A ansiedade patológica é paralisante e bloqueia o desenvolvimento, tendo consequências ao nível relacional, familiar e educativo. Pode emergir, por exemplo, perturbações de aprendizagens, perturbações de comportamento, desinteresse, demasiada desmotivação, inércia, apatia, medos e pânico excessivos. Algumas crianças com graves problemas de ansiedade passam despercebidas pelos professores e pelos próprios pais, por terem tendência a estarem demasiado sossegadas e serem demasiado obedientes. Outras, acabam por “massacrar” a vida dos pais e dos professores devido à sua “rebeldia” que não é mais do que uma chamada de atenção e um pedido de ajuda.

Estados depressivos nas crianças e adolescentes

A tristeza é um sentimento normal e uma condição inerente a qualquer ser humano. Todas as crianças, adolescentes e adultos se sentem tristes de vez em quando, passando por períodos de alguma tristeza, sendo esta um processo que tem de ser contextualizado e percebido como “desilusões normais” e indispensáveis ao crescimento e desenvolvimento humano.

Quando se perde alguém, quando se passa por uma situação de divórcio ou de mudança, entre outras situações, a tristeza é uma resposta ativa e necessária a um luto que tem de ser vivido. Contudo, é preciso chamar a atenção para o fenómeno da depressão (diferente da tristeza normal) nas crianças e adolescentes, que ocorre, muitas vezes, mais cedo do que se possa pensar.

Na idade pré-escolar (até aos 6 anos), uma criança deprimida pode apresentar alguns sintomas, sendo os mais frequentes estados físicos como dores de cabeça frequentes, dores de barriga, fadiga e tonturas. Associadas a estas queixas físicas estão a ansiedade (nomeadamente a ansiedade de separação), fobias, agitação psicomotora, irritabilidade, perturbações do sono e da alimentação, enurese e encoprese, comunicação deficiente, isolamento social e dificuldade em brincar. Em idade escolar (a partir dos 7 anos até aos 12 anos) pode surgir humor depressivo já capaz de ser verbalizado, relatado como tristeza, irritabilidade ou tédio. Podem apresentar uma aparência cabisbaixa, choro fácil, apatia, isolamento social, fobia escolar, obsessões, fadiga intensa, alterações do sono e da alimentação, e também sintomas físicos.

A depressão nos adolescentes costuma apresentar sintomas semelhantes aos dos adultos. No entanto os adolescentes deprimidos podem não manifestar apenas tristeza, mas também irritabilidade e raiva, rebeldia, comportamentos de oposição, aborrecimento e tédio, sentimentos de desespero e culpa, perturbações do sono e alteração do peso, prejuízo no desempenho escolar, social e relacional, baixa auto-estima e pensamentos suicidas.

O consumo de drogas pode surgir como uma tentativa de fuga ao real estado de depressão em que o adolescente se encontra. Há que distinguir o que é uma fase transitória no processo adolescentil, em que todos os sintomas acima referidos acabam por ser normais e passageiros, daquilo que se torna persistente, duradouro e que reflete um sofrimento patológico que está a ser difícil de gerir.

Privacy Settings
We use cookies to enhance your experience while using our website. If you are using our Services via a browser you can restrict, block or remove cookies through your web browser settings. We also use content and scripts from third parties that may use tracking technologies. You can selectively provide your consent below to allow such third party embeds. For complete information about the cookies we use, data we collect and how we process them, please check our Privacy Policy
Youtube
Consent to display content from Youtube
Vimeo
Consent to display content from Vimeo
Google Maps
Consent to display content from Google