Na ansiedade normal e patológica

Em menor ou maior grau, a ansiedade está presente em toda a nossa vida. No entanto, há que distinguir a ansiedade inevitável, ligada às frustrações, às perdas, aos fracassos e às mudanças, mas ligada ao progresso e desenvolvimento, da ansiedade mal tolerada, desproporcionada, associada à psicopatologia e que requer uma atenção especial.

A ansiedade é uma reação biológica e emocional normal do ser humano que o prepara para um acontecimento que pode ser vivenciado como um perigo real ou imaginário. É considerada uma resposta natural necessária para o organismo tomar medidas e para a nossa auto-preservação. Sem ansiedade não há pulsão para a vida. Quando temos um exame ou uma entrevista de trabalho, ficamos ansiosos, mas é a ansiedade que nos prepara e nos impulsiona para enfrentar esse acontecimento. Este tipo de ansiedade, embora nos surja como desconfortável e não queiramos senti-la, é uma ansiedade considerada “boa”. Sem ela talvez não nos esforçássemos para estudar, ou não acordássemos para ir ao exame ou simplesmente iríamos para a entrevista totalmente desinvestidos com “demasiada” descontração, sendo por isso essa ansiedade inerente à vida. No entanto, quando a mesma é desproporcionada em relação a uma situação e quando se torna excessiva, em vez de ter essa função, tem o efeito contrário: paralisa e entorpece. Surge, então, um medo irracional, que o próprio não compreende, e que não o deixa avançar, aliado a fortes sensações físicas, como dores de barriga, tremores, palpitações, falta de ar, transpiração, e uma apreensão que o imobiliza. É aí que a ansiedade se torna patológica e o impede de ser livre nas suas escolhas, na vida, e de ser feliz.

Alguns Sintomas de Ansiedade
  • Dor no peito;

  • Medos;
  • Preocupações excessivas;

  • Tremores;

  • Sensação de desmaio / tontura;

  • Palpitações;

  • Insónias;

  • Problemas digestivos;

  • Fadiga excessiva;

  • Dores no corpo;

  • Náuseas;

  • Sensação de sobressalto…

No Pânico

Um ataque de pânico é caracterizado por um período intenso de medo, por um pico de uma ansiedade extrema acompanhado de sensações corporais e psíquicas, tais como: Palpitações, taquicardia, suores, tremores, tonturas, sensação de desmaio ou vertingens, falta de ar, náuseas, dor de estômago, medo de morrer, medo de enlouquecer ou perder o controlo, desrealização e/ou despersonalização (isto é, sensação de irrealidade, como se vivesse num sonho, num filme; “sensação estranha”, onde o mundo e o eu são percepcionados de forma estranha).

A emoção subjacente é o medo, e o “medo de ter medo”, que leva a uma ansiedade antecipatória podendo evoluir para uma agorafobia – evitam-se locais não familiares e fora da zona de conforto, ou locais onde já se tenha experienciado um ataque de pânico, ou se possa senti-lo de novo e onde a fuga seja difícil (filas de trânsito, centros comerciais, filas de supermercado, cabeleireiros, reuniões, etc.). Forma-se, assim, um ciclo vicioso, em que o medo de ter medo leva ao isolamento e ao evitamento fóbico de variadas situações e a um estado depressivo. Alguém que já tenha vivenciado uma situação de pânico saberá o terror e o desespero interno sentido e evitará tudo aquilo que possa levá-la a experienciar de novo tal horror. O que é importante compreender é a origem e motivo do pânico para que as mudanças e o seu alívio possam acontecer e que, na realidade, não vai morrer, nem vai ficar louco, nem vai ficar sem uma saída, embora no momento sinta como tal. Com o tratamento adequado e profissional é possível tratar os ataques de pânico e sair deste ciclo vicioso.

No luto

A perda de uma pessoa que nos é querida e pela qual nutrimos um grande amor implica um sofrimento e dor intensos. A estas vivências psicológicas – consideradas normais – chamamos de “trabalho de luto”. O luto não poderá ser considerado como uma doença que necessita de tratamento, trata-se de um processo “normal” que considera a noção de tempo, espaço e mudança psíquica. Falamos de uma adaptação mental e emocional à situação de perda.

A reacção a esta situação compreende várias fases:
  • Choque no confronto com a realidade;

  • Recusa e negação da realidade;

  • Sentimentos de zanga, e raiva como protesto; dor, revolta, culpabilidade;

  • Tristeza como processo de desinvestimento;

  • Consciencialização e aceitação do sentimento de perda; retorno à vida normal e investimento em novos objectos.

Depois de um trabalho de luto saudável, o sujeito irá trabalhar estes sentimentos de tristeza, culpa e zanga, ficando dentro de si uma representação estável e integrada de sentimentos positivos e negativos. É, assim, uma fase transitória e necessária para poder investir novamente nos aspectos bons da vida e em si próprio.

Não há outra forma de elaborar a perda sem a passagem por estas vivências. Se ocorre uma negação da realidade – muitas vezes de forma inconsciente -, mais tarde ou mais cedo “micro coisas” irão precipitar a perda não vivida e não elaborada, causando o luto patológico, a depressão ou outro tipo de sintomatologia. No luto patológico predomina a negação da realidade, sentimentos de tristeza profunda, sensação de vazio, limitações no dia-a-dia, incapacidade de usufruir de actividades que antes davam prazer, incapacidade de investir em novos projectos, novas relações, novos objectos. É neste tipo de processo que será necessária ajuda profissional, de modo a que se possa proceder à elaboração de um luto normal e saudável.

O luto trata-se de um processo lento, longo, com graus variáveis de desinteresse pelo mundo exterior que tenderão a diminuir conforme o processo avança. No final a pessoa amada e perdida adquire a forma de “uma lembrança”, o estado depressivo desaparece dando lugar a um re-investimento em novas relações afectivas.

Nas obsessões e compulsões

Todos nós experimentamos de algum modo alguma ruminação mental, sentimentos de dúvidas, ambivalências em determinada fase da vida. As obsessões e compulsões constituem um estado que pode surgir numa “quantidade tolerável” e ser passageiro, fruto de um período em que a pessoa se encontra mais ansiosa, stressada ou deprimida. Ou, por outro lado, pode ser mais frequente e uma limitação exacerbada no quotidiano.

As obsessões são caracterizadas por pensamentos e ideias ruminantes acompanhadas de grandes doses de angústias, surgindo as compulsões que são comportamentos repetitivos e estereotipados que funcionam como respostas às obsessões, servindo para aliviar a ansiedade, afastar o azar, ou evitar um acontecimento negativo, como se de um processo mágico se tratasse.

Os sintomas passam por:
  • Pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes que são experimentados como intrusivos e/ou inapropriados e que provocam mal-estar intenso;

  • Comportamentos repetitivos (lavagem de mãos, rezar, contar, repetir palavras mentalmente, ordenações, verificações) que a pessoa sente compelida a executar em resposta a uma obsessão (pensamento ruminante);

  • A pessoa reconhece que os pensamentos obsessivos são produto da sua mente, que são difíceis de controlar e que são irracionais, sente-se obcecada por ideias que considera absurdas, ou por ideias que contradizem a sua moral.

Esta condição provoca mal-estar, consome tempo e interfere significativamente com as rotinas normais de cada um. Considera-se uma defesa que a mente proporciona devido a questões internas difíceis de serem pensadas, de ganharem uma consciência e de poderem serem faladas e transformadas. A psicoterapia torna-se basilar neste processo para que a pessoa possa entender o que se encontra por trás desta defesa mental que a faz ser e ficar prisioneira de si própria.

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